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[Beta-reading] Entrevista a João M. Silva

Por lapso, agendei este post mal (obrigada, Carla, por me avisares!) mas já saiu, saiu, pronto. É uma rubrica em que vou entrevistar autores que utilizem esta ferramenta para dar a conhecer não só o processo como os autores que a utilizam. 

***

João M. Silva é autor de "Novos Tempos", o primeiro volume de uma duologia distópica, com vertente policial.


João, és um jovem escritor ainda não publicado. Como surgiu a ideia para “Novos Tempos”?

A ideia para o “Novos Tempos” surgiu de uma conversa. Estava a falar com uma colega minha sobre a situação do país, de como está tudo a subir (a água, o gás, etc) e, de repente, eu digo: “Daqui a pouco, pagamos para respirar”. De início não liguei, mas depois comecei a pensar nisso e percebi que até podia ser uma ideia interessante. Fiz esquemas, organizei ideias e depois comecei a escrever. Foi um processo um pouco demorado porque tive de adaptar o livro ao ano de 2148, com as novas tecnologias e uma Lisboa pós-apocalíptica. Muita coisa surgiu já durante o processo de escrita do livro.

Novos Tempos
Capa provisória

O que te levou a escrever um livro de ficção científica?
Sem dúvida o facto de poder inventar e puxar pela imaginação. Quando escrevemos um livro que se centra no passado ou no presente, temos de nos confinar àquilo que há. Falo das tecnologias, modas, leis, politicas… Agora, quando se escreve um livro passado no futuro, o nosso horizonte de ideias é muito mais vasto. Podemos inventar desde carros que voam até empresas que vendem botijas de oxigénio porque é impossível sair à rua sem elas.

Quais foram os livros e autores que te inspiraram?
Só li três distopias até agora, por isso, elas foram sem dúvida a minha inspiração. Falo de Divergente, de Veronica Roth, Os jogos da Fome, de Suzanne Collins e Destinos Interrompidos, de Lissa Price. Toda a gente sabe que as protagonistas destes livros são quase como heroínas modernas, mas eu não quis fazer isso com a Sara. A minha grande inspiração foi em relação aos ambientes e cenários. A Sara, protagonista do Novos Tempos, é, na minha opinião, muito diferente de Katniss Everdeen, Beatrice Prior ou Callie Woodland. Tentei fazê-la mais humana possível e, como tal, comete erros e tem medos, dúvidas e angustias. Não estou a menosprezar as outras histórias, até porque sou um grande fã destas três sagas, mas queria fazer algo diferente. Alguém com quem as pessoas se possam identificar e partilhar o sofrimento, os medos e os receios.

Com que dificuldades te deparaste?
Deparei-me com algumas dificuldades, mas a seu tempo, consegui superá-las. No entanto, a principal foi esta: Como queria uma distopia, mas também um policial, juntar estes dois temas num só, não foi muito fácil. A protagonista, Sara, passa por várias situações bastantes traumáticas durante o livro, e começa a ser ameaçada pelo “Ele” que sabe o segredo que ela esconde há anos. A parte de policial entra aqui e, juntar o aspeto da falta de oxigénio neste enredo policial, não foi fácil. A história tem de ser congruente. No fim, penso que atingi o objetivo e consegui deixar em aberto o tema para um segundo livro, que também era uma das minhas grandes prioridades.

Como ficaste a par do processo de beta-reading?
Para ser sincero, eu não fazia ideia que havia leitores-beta e descobri por acaso. Estava a ver sites com entrevistas a outros autores e deparei-me com uma entrevista à autora Liliana Lavado. Ela falava de leitores-beta e eu não sabia o que isso era. Fui procurar a respeito e descobri em que consistia todo o processo. Mandei um email à Liliana e ela ajudou-me bastante neste sentido.

Que vantagens/desvantagens retiras da experiência?
Retiro mais vantagens que desvantagens. A principal vantagem é, sem dúvida, podermos aperfeiçoar a nossa história. As dicas, sugestões e até as críticas são muito importantes para tornar a história interessante para o leitor. Não nos podemos esquecer que leitores-beta são isso mesmo, leitores, e a opinião deles será, com certeza, a opinião de outras pessoas que ainda não leram o livro, mas podem vir a ler, caso este seja publicado. Outra vantagem é os laços de amizade que se criam durante este processo. No meu caso, só contactei os meus leitores-beta por email, mas mesmo assim cria-se sempre alguma aproximação com as pessoas. A desvantagem é termos de esperar para ler a opinião do leitor-beta. Claro que é necessário tempo para que haja uma crítica construtiva e ajustada à história, mas nós autores ficamos a roer os nós dos dedos até ter a opinião à nossa frente.

Tem correspondido às tuas expectativas? Como tem sido o feedback relativamente a Novos Tempos?
Sim, tem correspondido às minhas espectativas. Sinto que a minha história está muito melhor e mais bem construída desde que dei o livro a ler aos leitores-beta. Em relação ao feedback do Novos Tempos, tem sido melhor do que eu estava à espera para ser sincero. É o meu primeiro livro, por isso, esperava ler uma enchente de críticas negativas, mas por acaso, isso não aconteceu. Claro que houve muitos defeitos que foram apontados, mas também houve muitas criticas positivas. Até agora não me posso queixar do feedback que tenho recebido.

O que tencionas fazer depois de dares o processo como terminado?
Eu tenho por hábito fazer logo as alterações assim que recebo as opiniões, não espero até as ter todas e depois mudar os aspetos que considero relevantes e pertinentes. O processo está quase a terminar e, quando isso acontecer, vou começar a enviar o livro para as editoras e esperar ter sorte. Assim que enviar, irei começar a escrever a continuação da história.

O que, na tua opinião, deve ter um leitor-beta para fazer um trabalho competente?
A principal característica que um leitor-beta deve ter é não ter medo de colocar o dedo na ferida. Dizer tudo o que acha que está mal é muito importante. É a partir daí que o autor aperfeiçoa o livro e o torna apelativo ao leitor e, até, a uma editora. As partes que os leitores-beta não gostam, normalmente coincidem com as partes que os outros leitores também não aprovam.

 O que tens a dizer da relação entre leitor-beta e escritor?
Tem ser uma relação de amizade, mas também profissional. Quando os autores pedem opinião aos leitores-beta, normalmente, pedem uma opinião honesta e têm de estar preparados para ler coisas desagradáveis. Quando não se gosta de ler algo, aproveita-se para pensar o porquê de não estar bem e não desatar a ofender a pessoa que nos está a fazer o favor de ler a história. Temos de levar as críticas negativas como oportunidades de melhoria e não como ofensas.

Para terminar, para os escritores que não conhecem esta realidade, o que lhes dirias? Que características devem aperfeiçoar antes de se submeterem a críticas de pessoas que não conhecem ou conhecem pouco?
Antes de enviar o livro a um leitor-beta, o autor deve ler e tentar “apanhar” o máximo de erros e incoerências que conseguir. É importante que o autor esteja preparado para receber todo o tipo de críticas e lembrar-se que é uma oportunidade para melhorar.
Em relação ao facto de não conhecer as pessoas, eu acho, na minha opinião, que quem entra neste processo deve arriscar e acreditar na boa intenção das pessoas. Claro que é sempre um risco, “mas quem arrisca não petisca”. Posso dizer que não me arrependo nada de ter dado o meu livro a ler aos leitores-beta e aconselho vivamente aos outros autores que o façam.

Obrigada, João!
A título de curiosidade, esta música é uma das escolhas do autor.

Podem ver a minha opinião, aqui

Comments

  1. Se o beta reading não é fácil para quem espera (eu que o diga, que tenho por aí um livro que não é o meu género publicado!) faço ideia do que é para quem lê as nossas histórias "inacabadas" e quantas vezes a precisarem quase de reescrita!
    Só temos que ficar agradecidos!

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    Replies
    1. É por esta humildade que a Carla e o João demonstram que é tão bom ser beta! Só desejo sucesso aos livros escritos e aos que ainda estão para vir :) e claro, sucesso aos dois enquanto escritores, porque nós queremos sempre ler mais histórias!

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    2. Silvana, concordo inteiramente.

      Carla, é difícil para ambas as partes. Eu, para dizer a verdade, sou muito bruta às vezes, porque digo as coisas tal como as penso, sem qualquer filtro. Às vezes, pode ser bom, outras pode ser mau. Sempre fui ensinada a pensar nas coisas que digo e na forma como digo e na leitura-beta eu tenho essa liberdade. É bom, mas acaba por ser mau, fico cheia de remorsos às vezes! Mas enfim... é um processo de aprendizagem.

      Tal como a Silvana, desejo muito sucesso aos dois :)
      Obrigada pelos comentários!

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  2. Uma excelente ideia :)
    Parabéns aos dois pela entrevista :)

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  3. Boa entrevista! Só sinto é uma necessidade de saltar para o palco e - a modos que - mandar vir com a segunda resposta (sou muito protectora da Katniss, oops - porque os outros nao li).
    Estou curiosa pelas próximas ^^

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    1. Obrigada *.* isso vindo de ti significa muito (e não estou a ser irónica nem coisa que me valha).

      E sim, a segunda pergunta também me ficou a roer um bocadinho, porque li a trilogia d'Os Jogos da Fome e Divergente. O outro ainda não consegui, nem sei se leio.

      Ui... as próximas, a ver se não faço asneira e não as agendo para dias em que não é suposto saírem!

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    2. De rien! Sim agora vê lá para quando é que agendas as outras!

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  4. Óptima entrevista:) Por acaso foi uma das coisas que mais gostei na personagem Sara - o sentimento de que ela era humana e errava, que não era a típica durona das distopias. Parabéns ao João pela humildade e pelo projecto e a ti Ivonne pela entrevista:) Beijos

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    Replies
    1. Obrigada, Catarina :)
      Eu tive uma relação mazinha com a Sara, o João já sabe a minha opinião e só espero ter conseguido ajudá-lo. Não creio que as personagens femininas das distopias que li tenham sido duronas. Choraram muito e erraram muito também, mas são apenas pontos de vista.

      O João é um autor que, se continuar assim, vai dar que falar, porque é muito humilde e aceita críticas de uma forma excelente. Isso é muito raro (eu que o diga, que não sei ouvir críticas lol)

      Obrigada, Catarina, pelo elogio e pelo comentário! Beijinho*

      Delete
  5. excelente entrevista :). também li o livro, a minha ajuda foi mais sobre o que gostei ou não e não sobre tecnica. a protagonista chorava demais quando li o livro espero que agora esteja mais durona, e claro que a cena da mudança de visual tenha sido alterada, embirrei com ela :)
    bjs

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    Replies
    1. Susana,

      Como já disse no comentário anterior, eu também embirrei com ela. Esperemos que o João melhore, tem todo o tempo do mundo para isso :)

      Obrigada pelo comentário! bjs

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