Skip to main content

"A Filha do Barão", de Célia Correia Loureiro - PARTE I

A Filha do Barão

 Introdução à Opinião

Tenho tanto para dizer sobre este livro que fiz algo que há muito não fazia: comecei a escrever o meu parecer antes de terminar a leitura (ressalvo que não é uma opinião fundamentada).
Este é um livro pesado em muitos aspectos; literal, literal-figurativo e de conteúdo. Literal, porque tem mais de 580 páginas e é pesado p’ra catano. Lamento o uso do calão, mas -falando português e bem - é isso mesmo. Cada vez que pego no calhamaço, pergunto-me que segredos enclausura. Sinto o peso da história e fico minutos a observar a capa com um orgulho que não sei explicar. Pareço o típico bookaholic, a sentir a aspereza e volume das páginas, que não são nada finas, assemelhando-se a uma edição antiga, por assim dizer, mesmo a mais antiga que tenha datar de meados de 60/70 e talvez o que acabei de dizer seja um total disparate pela comparação imprecisa.
Não sou portuguesa – não de nascimento, pelo menos – mas posso afirmar que senti orgulho num produto nacional que raramente sinto.
Esta não é a minha primeira experiência com a autora, em Janeiro li o seu primeiro, Demência, num registo diferente em tudo; na escrita, nas personagens, nos diálogos e claro, na época. E por aí fora, não me vou alongar aqui.
A escrita não é nada simples. (In)felizmente li algumas opiniões em que disseram precisamente o contrário. Ok, opiniões são opiniões, por isso eis a minha. Se tivesse de nomear adjectivos para caracterizar a escrita da autora, apetecível e irresistível seriam dois deles, mas nunca simples. Isto, porque apesar de, em cada linha, não existir termos espalhafatosos, a autora tem um vasto vocabulário que faz com o que leitor se sinta em casa, não se sinta estúpido ou com vontade de ir ao dicionário ante a sua ‘ignorância’. Um livro que é bom, quiçá excelente – um para recordar e ter na estante - precisa de nos ensinar algo, e não falo apenas do conteúdo, que é o que mais importa. Eu gosto de ir ao dicionário, não por me sentir ignorante, mas por ver um novo termo e querer aprender mais, ver se a minha dedução foi correcta durante a leitura. A autora introduz variados termos – ressalvo que já conhecia a maioria e digo isto, não com arrogância, mas para dizer que se percebem pelo contexto - sendo  esta uma das maiores qualidades de um escritor: conseguir fazer com o que leitor perceba sem ter de ir ao dicionário. A mestria na escrita não se pauta pelo uso de vocabulário extravagante, rico e essas coisas todas, mede-se, vá, pela capacidade  do escritor em conseguir transmitir ao leitor o que quer e como quer. Isto, claro, na minha opinião.
Em relação ao conteúdo, pelo trabalho árduo da autora, pelas tardes nas bibliotecas, pela pesquisa de anos – não meses, anos! – e pelas revisões constantes e equipa que a ajudou na construção do romance, depreendo que seja um livro com um rigor histórico… pouco natural em romances históricos+portugueses. Com ênfase no +. Não sou de ler livros históricos, nem históricos portugueses – e já lá vai o tempo em que devorava os manuais da disciplina - daí a dedução que fiz, espero que de forma acertada.
Um livro que tem um pormenor tal que me tem feito parar a leitura N vezes, só para poder assimilar a época. Existem livros que (1) conseguimos ler de um fôlego (por exemplo, os livros da Julia Quinn, não obstante a comparação que ficou erradamente associada agora, sei que não se enquadram no registo histórico - eu, pelo menos, considero-so de época, mais leves e menos sérios, por assim dizer, e quando dou por mim, com muita pena, despacho-os em poucas horas); existem livros em que (2) somos obrigados a abrandar o ritmo de leitura por a escrita ser aborrecida, as personagens serem ocas e não haver história que se coma e permaneça no estômago; e existem livros que (3) lemos devagar porque não conseguimos ler mais rápido, porque tem tantos pormenores para assimilar e a escrita prende-nos à época que é como se tudo se desenrolasse aos nossos olhos e não temos outra hipótese senão ler devagar e apreciar. OU SEJA, não é um turn-page (ou como se diz).  
E fico-me por aqui. Amanhã, viro mais umas quantas páginas. Viro não, degusto.

Sobre as cerca de 180 páginas que li, pouco mais tenho a referir. E se tenho, prefiro guardar para amanhã; uma possível parte II a caminho, não sei quantas vou precisar. 

As primeiras páginas foram um choque. No bom sentido. Foi um mergulhar de cabeça que me arrebatou. Ainda posso vir a arrepender-me, o tiro sair-me pela culatra (esta deve ser a minha expressão favorita quando escrevo opiniões e pareceres) e no final odiar o livro. Ainda pode acontecer, sim… mas por enquanto o início fez-me vir cá escrever isto. 

Comments

  1. Vou ler a Filha do Barão!
    Mas para quem gosta de romances históricos, bem escritos, em minha opinião o melhor romance histórico que li até hoje - aconselho a leitura de Inês de Castro
    Autor Faustino da Fonseca
    Editor: Fronteira do Caos
    Colecção: Tesouros Perdidos da Literatura Portuguesa
    http://bibliotecajmo.blogspot.pt/

    ReplyDelete

Post a Comment

Deixa aqui as tuas epifanias ^^
A gerência agradece :)

Popular posts from this blog

Contos| 5 ideias para escrever

Depois de um mês que foi um D E S A S T R E, surge Março com a luz ao fundo do túnel. 
Ainda estou doente, mas se não me puser de pé o corpo e a mente habituam-se ao bem bom da caminha e não pode ser. Chega de mandriar. De pé, decidi escrever. Como se uma coisa tivesse a ver com a outra...
Eu repito: decidi escrever. Em 2013 terminei o meu primeiro draft e fiquei com menos um esqueleto na gaveta com a promessa de reduzir os restantes. Em 2014, peguei-lhe e dei-lhe uma volta de 180º, integrei muitas coisas, novas situações, personagens, twists, mas... achei que ME faltava algo enquanto escrevinhadora, talvez mais experiência como leitora. Vai daí, deixei as ideias em lume brando e dediquei-me à leitura; li de tudo, li muito, li livros pequenos e grandes, em português e inglês, físicos e e-books. 
Em 2015, propus-me a terminá-lo. E quem anda nas ruas do editanço e etc e tal, sabe como funciona. Aiiii, que isto está tão bom. Hãããn qu'é que andaste a beber?!?! Está horrível! Fui eu que e…

"A Grande Revelação", de Julia Quinn

Goodreads
Opinião
Quando se trata de Julia Quinn, não consigo ser imparcial. Não, correcção: não sei ser imparcial. Para falar a verdade, não que o seja nos outros livros que leio, mas com esta autora é diferente.
Este livro é especial, por muitos motivos. Um deles é ter revelado o GRANDE segredo que é absolutamente fenomenal. Ainda outro prende-se pelo dom que ambos os protagonistas têm em comum. Um gosto que também é o meu... e não, não vou dizer qual é porque seria um spoiler de todo o tamanho. Esperei muito tempo – talvez umas duas semanas para comprar o livro que eu pensava que sairia a dia 27 de janeiro, e mais duas semanas para comprá-lo efectivamente depois do lançamento - mas, puf, isto não é nada certo? Nada, comparado com os meses que ficarei à seca à espera do 5#, oh dear Lord…Focando a história, que isso é que importa, tinha muitas expectativas sobre ela. Quando lemos um ou dois livros de uma dada autora, ainda é como a outra. É novidade e, por gostarmos tanto, tanto, tanto,…

yWriter

Nota aos LeitoresDecidi partilhar algumas dicas, programas, sites, etc que me têm ajudado a desempenar na escrita. Incrível foi eu já ter este post escrito e agendado e alguém me dizer: tenta usar a escrita e o blogue como "testemunho" e não como "confidência". Por isso, eis-me aqui... com uma dica que me tem realmente ajudado! 
 *

Utilizo este programa há uns anos e só tenho coisas boas a dizer!

O que é yWriter?