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"A Filha do Barão", de Célia Correia Loureiro

A Filha do Barão

Opinião

No terceiro dia em que pousei o livro, escrevi uma introdução à opinião dizendo que provavelmente escreveria mais. Não o voltei a fazer. Andei adoentada e, sinceramente, faltaram-me as forças para escrever – ou fazer verdade seja dita - fosse o que fosse durante esta leitura.
Tenho muito a dizer, sim. Porém, com medo de não ser lida – e tal nunca me impediu de escrever muito quando poderia escrever pouco – vou tentar cingir-me ao mínimo aceitável.

O início
Como havia dito aqui, foi um choque, um mergulhar de cabeça nesta época. Tantos pormenores para assimilar, tantos detalhes; as roupas, as cartas, o modo de falar… Por onde começar, certo? 
No início, são-nos apresentadas as personagens. O Barão D. João de Albuquerque e a sua esposa D. Sofia; a filha, D. Mariana de Albuquerque; as criadas/aias/etc, Nuna, Maria, Joaquim; por aí fora, são tantos que me é difícil recordar dos nomes de todos – embora durante a leitura não tenha sido difícil retê-los a todos, com personalidades tão distintas e características que os diferenciaram uns dos outros e os tornaram memoráveis. Movidas pela ordem do Barão, que se encontrava doente, estas personagens – pessoas? - embarcaram para o Norte, para casa do Inglês Daniel Turner, a quem Mariana ficara prometida por acordo mútuo entre o Barão e o estrangeiro.
As descrições são tão vividas que me foi impossível não imaginar tintim por tintim e não voltar a ler passagens uma e outra e outra vez como se de um botão repeat se tratasse para poder voltar a imaginá-las tão vividamente. Demorei a ler, sim, há muito que não me recordava de uma leitura que me levasse dias – seis, para ser exacta, com pausas pelo meio, perfazendo dozes dias desde o início ao término – e que eu apreciei sem reservas.

As personagens
Cresceram muito, todas elas. Já disse anteriormente que são diferentes; Artur é uma das que mais se destacou pela sua forma de falar à homem das cavernas, credo, aquilo não se percebia quase nada! Bom, fora a comparação, é certo que as pessoas do povo, completamente iletradas, não usufruiam da correcção da postura e de uma educação e aprendizagem de linguagem cuidada… E do Norte ainda por cima, a pronúncia tão vincada… 
Cada personagem trazia mais uma ou duas - ou mais - como bagagem. Cada uma com história que se entrecruzavam umas com as outras. 
As personagens principais - os protagonistas Mariana e Daniel - mudaram muito ao longo da narrativa. Um casamento, que se afigurava apenas táctico e como cumprimento de um pedido, transformou-se tão mais do que isso. Pela sinopse, poderíamos subentender o surgimento de um grande amor, mas é muito melhor lê-lo, senti-lo e vê-lo florescer. A mudança das – e nas – personagens é uma das características que mais gosto de apreciar. É avassalador. Não é uma história de amor, ou melhor, é, mas não se foca nisso. Foca o essencial, com tudo a que tem direito sem cair em exageros, pois não era esse o objectivo. 
Ver as personagens com os seus medos, as dúvidas existenciais e de todo o tipo – pois que em tempo de guerra, ou face a qualquer outro perigo, o homem pensa em tudo, e em nada, não é verdade? – vê-las a combater os seus demónios e demónios de outros… Mariana, por exemplo, não é perfeita. Parecia, com a sua bondade tão diferente do temperamento da mãe, com o seu sentido crítico sobre política e outros assuntos que a maioria das mulheres na altura ignorava, com a sua inocência de menina e garra de mulher. No início, era apenas uma garotinha de 14 anos, prometida a um homem que vira uma vez e que supunha odiar e no fim carregava já em si a perda, o amor, a culpa, o arrependimento… Daniel também não era nenhum santo, é verdade. Já dizia o velho ditado ‘no amor e na guerra vale tudo’. Pois, parece que sim.

A Invasão
Este é um romance histórico muito fiel. Do que me lembro, que não sou nenhuma expert, infelizmente. À medida que ia lendo, ia-me recordando dos manuais da disciplina de História; as datas, os nomes, a queda da ponte do Douro, as imagens que via nos livros, caóticas e sem sentido. Eu gostava da disciplina, apenas o suficiente para tirar boas notas, não para me embrenhar nela com afinco e ler mais do que me era pedido. Portanto, sim, do que me lembro, repito, é um romance muito fiel. O facto de o meu conhecimento ser nulo não tira – nem deve tirar - crédito à autora nem descredibiliza o valor deste livro. E fez-me ter vontade de ler tudo o que era de História, pôs-me na Bulhosa e na Fnac à procura de livros sobre História - do país onde vivo e do país onde nasci, Alemanha - quando há anos não o fazia de livre vontade. Despertou em mim a paixão que nutri pela História, mas com a diferença de querer saber mais de forma independente e autodidacta. 

Gustave
Já tinha passado o meio e confesso que a minha impaciência com esta personagem aumentava. E ela nem tinha sequer aparecido, pelo amor da santa! Porquê a intolerância? Eu explico: na sinopse, este Gustave foi mencionado com a promessa de vir desestabilizar a pouca ordem existente na vida dos protagonistas. Só que até +/- 75% da história o maldito francês não apareceu. Calma, calma, é justificado; eu é que sou apressadinha. Tem um papel do caraças este homem. Fugaz, mas é inegável que deixa a sua marca. O fim que a autora lhe deu foi – e isto é um eufemismo – diferente, inesperado, triste, quase inaceitável. Mas compreende-se. Ainda estou em negação, admito, mas compreendo. Quero compreender. A autora dá-nos a conhecer todos os lados da moeda – sendo que esta já ultrapassou o ter só dois lados há muito, se é que me faço entender!

O Final
Não esperava que o livro tivesse continuação, não obstante pertencer originalmente à Série do Vinho. Assim, o final deixou-me... com o coração pesado - mais uma vez recorro ao eufemismo - não estava à espera. Considerei o final, ou a preparação do terreno, quando Mariana retornou ao Porto ao encontro de Daniel. Durante a invasão francesa, saliento. É preciso dizer mais? Considerei-o melodramático ao princípio. Quando comecei a ler, o meu coração quase que me saltava do peito e, enquanto continuava, eu sei lá, só queria fugir e enfiar-me debaixo da cama. Como se isso fosse aplacar o que sentia, ah! Nota: não ler este livro em dias de chuva, ouvi-la a bater na janela, opá… Dá-nos um cagaço daqueles, de verdade! Foi um dos momentos altos do livro. A angústia humana, as perdas humanas, a maldade humana… Leiam e digam-me se conseguiram ficar indiferentes face a tamanha descrição que, ficcionada ou não, pode bem ter sido assim... E a realidade é: foi há apenas 200 anos, mais coisa menos coisa. Assustador. 

A Escrita
Já tinha dito, a Célia tem um dom. Um dom que aprimorou durante anos e que tem dado frutos a cada livro seu. Aliás, a cada escrito seu. Ainda me falta um que está publicado, O Funeral da Nossa Mãe, que quis ler antes deste para ler por ordem de saída no mercado literário. A curiosidade superou a vontade e acabei por ceder a esta tentação. Este A Filha do Barão tem uma escrita rica, completamente irresistível. Repito-me sim e repetir-me-ei quantas vezes forem necessárias. De livro para livro cada vez mais polida, um diamante a ser lapidado há anos. A autora já pode estar fartinha de ouvir - ou ler - isto, mas é verdade, que posso eu fazer?

A RTP bem avisou: alma lusitana
O primeiro Livro com selo RTP. O canal português mais antigo da televisão (e rádio? não sei!) resolveu apostar numa jovem autora e logo num romance histórico. Sabem o que vos digo? Não seria a primeira vez que tal aconteceria… Lembram-se de Equador, de Miguel Sousa Tavares? Oh vá lá, nem me venham falar de estaleca e de que a autora não é conhecida e bla bla bla, pelo amor da santa! Não ficaria surpreendida se a RTP apostasse numa mini-série baseada neste livro… E o livro transpira alma lusitana, sem dúvida nenhuma.


Tinha muito mais a dizer, mas é daqueles livros em que nada irá chegar aos calcanhares. O livro, esse, fala por ele mesmo e não é preciso mais. Ah, sim, apenas que a autora nunca pare. Não pares de escrever, Célia, por favor. Não é surpresa nenhuma dar esta cotação; 5* e acho que são poucas. 

Acho que o mínimo aceitável - ao escrever a opinião - foi pra galheta...

23.02.2014 
5*

Comments

  1. Ivonne,

    Obrigada por me fazeres ganhar o dia e a semana com a tua opinião :) obrigada por teres sido uma leitora tão atenta e uma comentadora tão entusiasta.

    O final do Gustave, articulado com a invasão do Porto, é coincidente com o que o povo terá feito aos franceses em que pôs as mãos. Encontrei referências do género nalgumas publicações, inclusive foi o final de um famoso juíz (espero não estar em erro quanto à procissão do senhor), de supostas "simpatias" francesas - nem sequer era francês - que ainda tentou argumentar e pedir para fazer uma última prece mas nem isso lhe foi permitido. Geralmente os romances escondem ou dramatizam esses acontecimentos, e como não dramatizar? Mas no meu livro eu quis que fosse algo tão fora da realidade, tão fora dos banhos no rio e dos gelados no Café do Comércio, que as próprias personagens vivam o choque e depois o varram para debaixo do tapete. Ninguém traz à tona coisas desagradáveis, mas no instante em que sucede tinha de ser poderoso.
    Perdoem-me leitores! Outros já mencionaram que essas partes são cruéis. Mas são a realidade e, como disseste, deu-se há 200 anos. Assustador!

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    1. E foi poderoso. Não chorei, mas acho que foi mais devido ao choque e ao aperto no meu peito que outra coisa.
      Foi aterroizante, mesmo. E compreendo que tenhas escrito assim, espelhaste a realidade, não passaste paninhos quentes. Deve ter sido muito... como dizer? Difícil - lá está de novo o eufeminos? - de escrever.

      Parabéns por mais um sucesso, querida Célia :)

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    2. *profissão do senhor, qual procissão! ai, que eu não ando boa.

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    3. A mente humana processa a palavra na totalidade e no contexto em que está nem me apercebi :P deixa lá, acontece aos melhores x)

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    4. agora sou eu que estou tolinha... 'eufeminos'? Eufemismo!!! x) Caneco!

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  2. Aposto que é mesmo uma leitura 5*****.. acho que esse livrinho é um dos que tb vai sobrevoar o atlântico, Ivonne ^_^

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  3. Também fiquei com bastante curiosidade neste livro mas eu pelo contrário ainda não conheço os outros da Celia C. Loureiro mas pretendo mudar isso ;)

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    1. força, Marta, é uma autora que não desilude :)

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