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"Legend" | Marie Lu


Legend (Legend, #1)

Título: Legend
Autor: Marie Lu
Editora: ASA
Publicação: Fevereiro | 2013
Título/Publicação Original: Legend | 2011
Sinopse: Aqui
Cotação

Começo por dizer que iniciei esta leitura no fim de Agosto. Desde meados de Setembro até fins de Outubro, a vontade de ler desapareceu [sendo substituída pela febre das séries e afins], de modo que a leitura deste livro - e de outros que ainda estou a colocar em dia - ficou atrasada. 

A capa tem um selo que diz "Para os fãs de Os Jogos da Fome". Para os mais distraídos, a trilogia mencionada de Suzanne Collins é uma das mais aclamadas dentro do género distópico e desde 2012 está a ser adaptada ao cinema. A primeira parte do terceiro livro, A Revolta, vai sair este mês no cinema, portanto os leitores que não leram e ficaram interessados ainda têm tempo. Não costumo dar atenção a estes selos, mas desta vez digo que neste caso foi bem aproveitado. Eu adorei Os Jogos da Fome e adorei este Legend. Com tantas distopias, admiro-me como os autores ainda têm imaginação para criar a sua própria sociedade distópica, a sua própria visão futurista alternativa. Até agora os livros que tenho lido, fora um ou outro porque há sempre excepções, retratam possibilidades bastante verosímeis e é assustador pensarmos em como o mundo pode mudar assim tanto dentro de um século ou dois.

Neste Legend deparei-me com uma República, que equivale à costa ocidental dos Estados Unidos, em guerra aberta com as colónias circundantes. De um lado vê-se um regime totalitário, com uma organização militar rígida e que através de testes de selecção impostas a crianças – provas físicas, psicológicas e conhecimentos sobre a República – escolhem os melhores candidatos para seguirem para formação. É uma autêntica lavagem cerebral marcada pela subtileza. Do outro lado, os bairros pobres, de lata, e as colónias que lutam pela sobrevivência e resistem às imposições do governo. De cada lado, existem os protagonistas correspondentes, ambos com quinze anos: June, um prodígio militar, e Day, um criminoso do bairro de lata.

Pelo livro ter alternado entre os pontos de vista destas duas personagens, devidamente identificados - ora como nome de June ora com o nome do Day - não há possibilidade de os confundir, ainda para mais quando ambos têm uma visão muito diferente do regime que os acolhe. Foi uma aposta segura e genial por parte da autora.

Como está na sinopse, June fica devastada pela morte do irmão, Metias, e este conflito despoleta a verdadeira acção. As motivações de June foram sentidas por mim enquanto leitora, as suas acções – nem sempre aprovadas, claro – foram compreendidas e toleradas. Foi uma personagem que cresceu imenso e que lutou contra o que acreditou. Não é fácil ter uma visão de algo e ter de mudar essa visão, principalmente quando em si mesma há um “choque de titãs” entre o que a República lhe diz e as discrepâncias que encontra com as suas competências acima da média que fez dela o Prodígio da República.

Day, sendo o principal suspeito da morte de Metias e acusado de outros crimes contra a República, acaba por estar sempre em fuga, fazendo uso dos conhecimentos que adquiriu na vida de rua. Ao longo da leitura e apesar de não estar muito acentuado – os crimes que cometeu ocorreram antes da acusação do assassinato, por isso temos uma visão dita e não mostrada – associei Day a um verdadeiro Robin Hood futurista. A roubar aos ricos e a dar aos pobres, com alguns princípios dignos apesar de ser um ladrão, as suas acções são aplaudidas pelo povo que luta pela sobrevivência e pela merecida liberdade. As suas motivações, tal como as de June, são perfeitamente compreensíveis [lógico que não digo quais ahahah]. 

As dicotomias “noite-dia” e “polícia-ladrão” adequam-se assim a estes dois. Tinham à partida motivos mais do que suficientes para se odiarem, para se matarem, mas o desenvolvimento da relação entre eles não foi forçada, o momento do encontro entre June e Day foi mais uma vez uma aposta inteligente da autora. Dado que Day é um dos criminosos mais procurados e por isso “desaparecido” dos holofotes, não estaria propriamente na esquina mais próxima e a forma como a autora conduziu os caminhos deles para que se cruzassem sem que isso parecesse óbvio ou premeditado foi um golpe de mestre. Há poucos autores a conseguirem um feito destes sem que lhes seja apontado o dedo por terem sido o “Captain Obvious” do ano.

Gostei que esta distopia tivesse incluído algum romance entre os dois, pautado pela acusação de assassinato [para Day] e pela dor da perda de Metias [para June]. Juntos conseguiram colocar as diferenças de lado, reconheceram que são ambos faces de uma mesma moeda e que um sem o outro não conseguiriam fazer a diferença. Não foi um desenvolvimento exagerado, a relação cresceu e não é algo que se veja muito em distopias. Este elemento diferenciador agradou-me mais do que pensei à partida. 

Um outro ponto positivo, apesar de a acção de focar nos protagonistas, reside na apresentação - uma visão interna - dos bairros de lata e da República - através de acontecimentos que uma vez mais se encaixam perfeitamente no enredo. Não estão lá só porque sim, fez todo o sentido tê-los lá e não adicionou aborrecimento à leitura, muito pelo contrário.

Marie Lu voltou a despertar em mim o gosto pelas distopias que eu julguei ter perdido. Foi uma óptima surpresa.

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